Aquela coleira ficou pendurada tempo demais. Tem gente que guarda retrato. Tem gente que guarda carta. Eu guardei uma coleira velha, já meio comida nas bordas, com uma fivela riscada e um cheiro que, de primeiro, ainda lembrava o pelo dele. Depois o cheiro foi embora também. Mas a lembrança, essa danada, não arredou pé.
Ela ficou ali, num prego perto da porta dos fundos, como quem ainda esperava serviço. Todo dia eu passava por ela. Às vezes fingia que não via. Outras vezes parava um pouco, só pra olhar. Homem velho faz dessas coisas. Diz que não sente, mas fica conversando com objeto quieto, como se aquilo fosse responder alguma coisa.
Eu servi no exército quando era moço. Aprendi a ficar em pé direito, a engolir palavra, a não mostrar tremor. Só não me ensinaram o que fazer quando a casa fica em ordem demais. Porque depois que Apolo se foi, a casa ficou certinha. Não tinha pote virado. Não tinha rastro de pata no terreiro molhado. Não tinha latido quando alguém passava na estrada.
A saudade não mora só na cabeça da gente. Ela escolhe canto. Mora num pote vazio, numa marca no portão, numa sombra no chão, numa guia pendurada. Aquela coleira era só couro, ferro e poeira.
Mas, pra mim, era Apolo dizendo que tinha passado por ali.